.

.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

52 - Giorgio Agamben


Giorgio Agamben (1942) filósofo italiano, graduado em Direito, editor na Itália da obra do filósofo alemão Walter Benjamin, nasceu na cidade de Roma, em 1942. Atuou como professor na Universidade de Verona e na New York University, antes de se insurgir contra a linha de segurança adotada pela gestão do Presidente George Bush, recusando-se assim a cruzar as fronteiras norte-americanas.
Hoje ele é professor de Estética e Filosofia Teorética na Universitá IUAV, na cidade de Veneza. Em sua obra ele exercita essencialmente a interação entre a filosofia, a literatura, a poesia e principalmente a política. Este filósofo vem, ao longo do tempo, elaborando uma vasta obra, com a qual ele pretende tecer reflexões sobre o comportamento político do Homem contemporâneo.
Agamben, ex-pupilo de Martin Heidegger, tem vários livros traduzidos no Brasil. Ao contrário de seus contemporâneos Toni Negri, pensador marxista anti-globalização, e Gianni Vattimo, que cultiva uma ética da incerteza, Agambem é um filósofo que não se aventura a apontar muitas soluções para os desafios atuais, nem revela euforia diante das novidades. Ele tem concorrido significativamente para o desenvolvimento da filosofia política atual, principalmente na esfera da meditação bio-política.

David Rubens

51 - Michel Serres


Michel Serres (Agen, 1 de setembro de 1930) é um filósofo francês. Sua formação superior se inicia na Escola Naval em 1947 onde se licencia em Matemática. Como caminho natural, nos dizeres de Serres, do aprofundamento da matemática, surge a filosofia. Um dos fatos que fez com que Serres abandona-se a Escola Naval e fosse para as humanidades foi a leitura de Le pesanteur et la grâce de Simone Weil. Em seguida ingressa na École Normale Supérieure em 1952 onde fará seus estudos literários, obtendo também o título de Filosofia em 1955. Durante os anos de 1956 a 1958 Serres serve à Marinha francesa. De volta à vida acadêmica, recebe seu doutorado em 1968. Serres foi orientado em sua tese por Bachelard. A tese versou sobre a diferença entre o método algébrico de Boubaki. É neste momento que Seres aprender matemática moderna, estrutura, álgebra e topologia. Ainda na década de 60 passa pelas universidades de Clemont-Ferrand e Vincennes (Paris-VIII, onde leciona com Foucault), ocupando mais tarde a cadeira de História de Ciência na Sorbonne (Paris I).
No decorrer de sua formação filosófica, Serres percebe que a epistemologia não repercutia as revoluções científicas. “Os epistemólogos trabalham sobre ciências já ultrapassadas”. Em muitos momentos, Serres, aponta a demora dos ramos da filosofia em acompanhar as revoluções científicas. Segundo suas palavras a Bruno Latour, a filosofia nem sequer deu ouvidos no tempo de seu acontecimento os barulhos de Hiroshima. Serres começa a olhar cada vez mais para as revoluções científicas e menos para o arcabouço técnico-filosófico que as epistemologias se muniam.
A sua formação filosófica passa, nos seus dizeres, por três revoluções, (...) em primeiro lugar, a transformações matemática, passado do cálculo infinitesimal ou da geometria às estruturas algébricas e topológicas (...) A segunda foi de ordem física: eu aprendera a física clássica e, de repente, eis a mecânica quântica (...) a terceira revolução, posterior, ocorreu após ter conhecido Jacques Monod e tê-lo como amigo por muito tempo.
É por meio dessas misturas entre ciência, filosofia, letras, que Serres forjará sua filosofia, seu modo de pensar as ciências.
Desde 1984 é professor da Universidade de Stanford, sendo ainda eleito para a Academia Francesa em 1990.


David Rubens

50 - Pierre Lévy


Pierre Lévy nasceu na Tunísia, país do norte da África, em 2 de julho de 1956, no seio de uma família de judeus; nesta época sua terra natal era colônia da França. Não se sabe praticamente nada sobre sua existência até 1980, quando ele terminou seu Mestrado em História da Ciência, na Universidade de Sorbonne, em Paris, a não ser que se graduou em História.
Sua vocação para a pesquisa lhe foi revelada durante um curso com o filósofo francês Michel Serres, na Sorbonne. Três anos após a conclusão de seu mestrado, Pierre defendeu sua tese em Sociologia e Ciências da Informação e da Comunicação, igualmente na capital francesa, discorrendo sobre a idéia da liberdade na Antiguidade.
As pesquisas de Lévy se concentraram especialmente na área da cibernética e da inteligência artificial. Nos anos 80 ele passou a lecionar na Universidade de Quebec, em Montreal, no Canadá. Suas aulas giravam em torno da função dos computadores no mecanismo da comunicação.
Nesta mesma instituição ele cuidou da gestão do departamento de comunicação do campus, de 1987 a 1989. Ao retornar à França, o filósofo da informação, que se especializou em investigar as relações entre a Internet e a esfera social, ocupou o cargo de professor de Ciências Educacionais na Universidade de Paris-Nanterre, aí permanecendo de 1990 a 1992.
Em seus estudos ele aborda o papel fundamental das tecnologias na esfera da comunicação e a performance dos sistemas de signos na evolução da cultura em geral. Simultaneamente ao seu trabalho na educação, ele institui em Genebra, na Suíça, um instituto conhecido como Laboratório Neurope, onde atua como pesquisador.
O estudioso lança, em 1987, seu primeiro livro, A Máquina Universo - criação, cognição e cultura informática. Mas Pierre se torna particularmente famoso em todo o Planeta a partir de 1994, quando ele difunde sua tese sobre a ‘árvore de conhecimento’, um mecanismo que criou junto com Michel Authier. Este sistema é composto por um software de cartografia e pelo intercâmbio de conhecimentos entre comunidades, gerando uma ampla enciclopédia virtual em constante transformação.
Esta teoria é exposta na obra A Árvore do Conhecimento, lançada em 1992, fruto do trabalho dos dois pesquisadores. Anteriormente, porém, ele publicou seu livro mais popular no Brasil, As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática, de 1990. Uma boa parte de sua bibliografia já foi publicada no Brasil.
A partir de 1993, Pierre passa a atuar como professor no Departamento de Hipermídia da Universidade de Paris-8, em St-Denis. De 2002 em diante ele assume como titular da cadeira de pesquisa em inteligência coletiva, na Universidade de Ottawa, novamente no Canadá. O filósofo logo se torna integrante da Sociedade Real do Canadá (Academia Canadense de Ciências e Humanidades).
Lévy já veio ao Brasil diversas vezes. Seus temas por excelência são a exclusão do universo digital, a Internet, as novas tecnologias da comunicação, o futuro da humanidade na esfera da contínua digitalização.

David Rubens


quarta-feira, 8 de julho de 2015

49 - Livros: Coleção Compreender - Editora Vozes


      Os livros apresentam uma introdução a vida e obra dos principais filósofos.
Todos os livros foram escritos por especialistas.
Editora Vozes





48 - Livros: Coleção Passo-a-Passo Filosofia - Editora Zahar

     Pequenos livros escritos por especialistas oferecem uma visão atualizada e abrangente dos temas. Leitura instrutiva além de prazerosa, os livros contam com cronologia, sugestão de leitura, glossário e seleção de textos.
Editora Zahar





     O Leitor trilha diferentes campos do saber, conhecendo de maneira gradual e interdisciplinar os mais importantes pensadores, ideias e obras.


47 - A Filosofia de Thomas Kuhn



Thomas Samuel Kuhn (18 de Julho 1922 – 17 de Junho 1996) Físico e filósofo da ciência estadunidense.
Seu trabalho incidiu sobre história da ciência e filosofia da ciência, tornando-se um marco no estudo do processo que leva ao desenvolvimento científico.
Thomas Kuhn formou-se em física em 1943, pela Universidade de Harvard. Recebeu desta mesma instituição o grau de Mestre em 1946 e o grau de Doutor em 1949, ambos na área de Física.
Após ter concluído o Doutoramento, Kuhn tornou-se professor em Harvard. Lecionou uma disciplina de Ciências para alunos de Ciências Humanas. A estrutura desta disciplina baseava-se nos casos mais famosos da História da Ciência, pelo que Kuhn foi obrigado a familiarizar-se com este tema. Este fato foi determinante para o desenvolvimento da sua obra.
Em 1956 Kuhn foi lecionar História da ciência na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Tornou-se professor efetivo desta instituição em 1961. Em 1964 tornou-se professor de Filosofia e História das Ciências, na Universidade de Princeton. Em 1971 Kuhn foi lecionar para o MIT, onde permaneceu até terminar a sua carreira acadêmica.
Kuhn morreu em 17 de Junho de 1996, vítima de câncer.
O primeiro livro de Kuhn foi A Revolução Copernicana, publicado em 1957. Mas foi em 1962, com a publicação do livro Estrutura das Revoluções Científicas que Kuhn se tornou conhecido não mais como um físico, mas como um intelectual voltado para a história e a filosofia da ciência.
Em uma entrevista cedida a filosofa italiana Giovanna Borradori, no ano de 1965, em Londres, Thomas Kuhn explica sinteticamente seu percurso acadêmico até a construção deste texto, que se tornaria o referencial de discussão entre os filósofos da ciência. Sua carreira inicia-se como físico e, até a defesa de sua tese de doutorado, tinha tido poucos contatos com a filosofia. Sua justificativa para este pouco contato com a filosofia é fundada principalmente na ocorrência da Segunda Guerra Mundial, pois havia, segundo ele, uma enorme pressão para empreender carreiras científicas e um grande desprezo em relação às matérias humanísticas.
Todavia, foi na Universidade de Harvard, quando teve que preparar um curso de ciências para não cientistas, que pela primeira vez, ele utilizou exemplos históricos de progressos científicos. Dessa experiência, Kuhn percebeu que a o desenvolvimento da ciência, numa perspectiva histórica, era muito diferente da apresentada nos textos de Física ou mesmo de Filosofia da Ciência. O livro Estrutura das Revoluções Científicas foi, então, um texto produzido e direcionado a um público filosófico, mesmo não sendo um livro de filosofia. Isso porque, conforme ele mesmo dizia, criticava o positivismo sem conhecê-lo em profundidade, assim como não se sentia influenciado pelo pragmatismo de William James e John Dewey.
A repercussão do seu livro foi tão grande na comunidade acadêmica que, já na segunda edição, em 1970, Kuhn apresentou um pós-escrito, no qual seus pontos de vista são, em alguma medida, refinados e modificados. E, para responder às acusações de irracionalismo, ele escreve, em 1974, um ensaio intitulado Reconsiderando os paradigmas e, logo depois, desenvolve com maior profundidade as descontinuidades históricas, que foram apresentadas em outro livro chamado Teoria do corpo negro e descontinuidade quântica - 1894-1912, publicado em 1979.
Thomas S. Kuhn ocupou-se principalmente do estudo da história da ciência, no qual mostra um contraste entre duas concepções da ciência:
Por um lado, a ciência é entendida como uma atividade completamente racional e controlada. (PERSPECTIVA FORMALISTA).
Em outro lado, a ciência é entendida como uma atividade concreta que se dá ao longo do tempo e que em cada época histórica apresenta peculiaridades e características próprias. (PERSPECTIVA HISTORICISTA).
Este contraste emerge na obra A Estrutura das Revoluções Científicas, e ocasionou o chamado giro histórico-sociológico da ciência, uma revolução na reflexão acerca da ciência ao considerar próprios da ciência os aspectos históricos e sociológicos que rodeiam a atividade científica, e não só os lógicos e empíricos, como defendia o modelo formalista, o qual estava a ser desafiado pelo enfoque historicista de Kuhn.



46 - Filosofia de Paul Ricoeur



Paul Ricoeur (27 de Fevereiro de 1913 – 20 de Maio de 2005) foi um dos grandes filósofos e pensadores franceses.
Paul Ricoeur nasceu numa família protestante. Órfão de mãe, que morre pouco depois de seu nascimento, perdeu o pai na batalha de Marne, em 1915, e foi criado por sua tia. Em 1936, licenciado em filosofia, criou a revista Être, inspirada nos preceitos de Karl Barth, teólogo cristão suíço. Em 1939, servindo como oficial de reserva, Ricoeur foi preso pelos nazistas e enviado ao campo de Groß Born e depois a Arnswalde, na Pomerânia, atualmente Polônia.
No pós-guerra foi acadêmico na Universidade da Sorbonne. Passou também pelas universidades de Louvaina (Bélgica) e Yale (EUA), onde elaborou uma importante obra de filosofia política. Ricoeur participou em debates sobre linguística, psicanálise, o estruturalismo e a hermenêutica, com um interesse particular pelos textos sagrados do cristianismo.
Ricoeur descreve assim, em 1991, suas raízes filosóficas: “Se reflito, dando um passo para trás de meio século [...], sobre as influências que reconheço ter sofrido, sou grato por ter sido desde o início solicitado por forças contrárias e fidelidades opostas: de uma parte, Gabriel Marcel, ao qual acrescento Emmanuel Mounier; de outra, Edmund Husserl”. Portanto, Ricoeur forma-se em contato com as ideias do existencialismo, do personalismo e da fenomenologia.
Suas obras importantes são: A filosofia da vontade (primeira parte: O voluntário e o involuntário, 1950; segunda parte: Finitude e culpa, 1960, em dois volumes: O homem falível e A simbólica do mal). De 1969 é O conflito das interpretações. Em 1975 apareceu A metáfora viva.
Em O voluntário e o involuntário, Ricoeur dirige a atenção para a relação recíproca entre voluntário e involuntário, assim como esta relação se configura na tríplice dimensão do decidir, do agir e do consentir. Em poucas palavras, necessidades, emoções e hábitos premem sobre o querer, que replica a eles, por meio da escolha, do esforço e do consentimento. Escreve Ricoeur: “Eu suporto este corpo que governo”.
Descendo ainda mais em profundidade no interior da existência humana, Ricoeur vê que o homem concreto é vontade falível e, portanto, capaz de mal. A antropologia de Ricoeur delineia um homem frágil, “desproporcionado”, sempre à beira do abismo entre o bem e o mal.
A fim de entender o mal e a culpa, o filósofo deve ouvir e interpretar os símbolos que representam a confissão que a humanidade fez de suas culpas; ou seja, deve compreender os mitos que veiculam símbolos como a mancha, o pecado, a culpabilidade etc. E, entre esses mitos, central, no pensamento de Ricoeur, é o mito de Adão: a figura de Adão mostra a universalidade do mal enquanto Adão representa toda a humanidade.





45 - Filosofia de Gianni Vattimo




Gianteresio Vattimo (Turim, 4 de janeiro de 1936), filósofo e político italiano, um dos expoentes do pós-modernismo europeu.
Discípulo de Luigi Pareyson, graduou-se em Filosofia, na cidade de Turim, em 1959. Especializou-se em Heidelberg, Alemanha, com Karl Löwith e Hans-Georg Gadamer, cujo pensamento introduziu na Itália. Em 1964, tornou-se professor de Estética na Universidade de Turim e, a partir de 1982, de Filosofia Teorética. Ensinou na condição de professor visitante, em vários universidades dos Estados Unidos.
Nos anos 1950, trabalhou em programas culturais da RAI. É diretor da Rivista di estetica, membro de comissões científicas de vários periódicos italianos e estrangeiros e sócio-correspondente da Academia de Ciência de Turim.
Recebeu o título de Doutor Honoris Causa das Universidades de La Plata, Palermo e Madrid.
Vattimo se ocupou da ontologia hermenêutica contemporânea, acentuando sua ligação com o niilismo - entendido como enfraquecimento das categorias ontológicas. Assim, contrapõe o pensamento fraco, uma forma particular de niilismo, às diversas formas de pensamento forte, isto é, aquelas baseadas na revelação cristã, no marxismo e outros sistemas ideológicos.
Segundo Vattimo, a partir das filosofias de Nietzsche e principalmente de Heidegger, instaura-se uma crise irreversível nas bases cartesianas e racionalistas do pensamento moderno.
Propõe uma filosofia baseada no enfraquecimento do ser como chave de leitura da pós-modernidade, mas também nas formas de progressiva redução da violência, de passagem a regimes políticos democráticos, de secularização, pluralismo e tolerância, como impulso à emancipação humana e à superação das diferenças sociais.
Sua proposta filosófica é uma resposta à crise das grandes correntes filosóficas dos séculos XIX e XX: o hegelianismo com sua dialética, o marxismo, a fenomenologia, a psicanalise, o estruturalismo.


44 - Filosofia de Ludwig Feuerbach

Feuerbach (1804-1872), iniciador do chamado “naturalismo humanista” ou “humanismo naturalista” no pensamento moderno, que preparou o caminho ao materialismo dialético de Marx, Feuerbach fez parte da “esquerda hegeliana”, da qual o marxismo tomará os seus postulados básicos. Também pode reivindicar uma nova atualidade no pensa mento contemporâneo, principalmente com relação ao existencialismo de esquerda de Sartre e de Camus.

Eis seus dois postulados fundamentais:
1) “O ser enquanto ser é finito”, porque sempre está nos limites do tempo e do espaço concretos, e “onde não há limites, nem tempo, nem necessidades, também não há qualidades, energia, spiritus, fogo, nem amor algum”.
2) A negação de Deus é o fundamento para a afirmação do homem: “Eu nego a Deus”, escreve Feuerbach, isto significa para mim: “Eu nego a negação do homem”.
Entre a imensa obra filosófica deste filósofo de vida discreta, que viveu seus últimos anos na miséria, destacamos suas duas obras principais: A essência do cristianismo (1841), seguida, em 1845, de A essência da religião. Todas as demais obras de caráter filosófico-religioso não são mais do que a ampliação das anteriormente mencionadas. Nessas duas obras expressa a crítica que se deve fazer da religião em geral e do cristianismo em particular, como religião positiva e revelada.
Segundo Feuerbach, no lugar de “Deus” deve-se pôr e escrever “humano”, de forma que a essência divina que se revela na natureza não seja mais do que a sua própria natureza. A natureza, pois, “não é somente o objeto primeiro e originário, senão também o fundo permanente e o fundamental desenvolvimento da religião”. A natureza sensível e concreta é a base do real.
Segundo a crítica de Feuerbach, deve-se fazer descer a religião da teologia à natureza e à antropologia. “O ser absoluto, o Deus do homem, é o ser próprio do homem”. Em consequência, “não foi Deus quem criou o homem, mas foi o homem que criou Deus com a sua própria imaginação, ao unir a especulação à base de abstrações, em oposição aos sentidos”. “Deus é o princípio imaginado ou fantástico da realização total de todas as vontades e desejos humanos.” Daqui o princípio: “Como é o teu coração, assim é o teu Deus”. Tais como são os desejos dos homens, assim são as suas divindades. Acreditar em Deus é “Criar Deus”. A divinização dos homens é o objetivo último da religião.
A crítica ao cristianismo aprofunda a instância antropológica individualista: o cristianismo genuíno é a antítese do paganismo, porque no cristianismo autêntico o indivíduo é somente uma parte do gênero e este se encontra somente na humanidade imediata. A expressão mais clara do gênero e do indivíduo no cristianismo é Cristo: o Deus verdadeiro dos cristãos. Cristo é o modelo, o conceito existente da humanidade, o compêndio de todas as perfeições morais e divinas... “O mistério da Encarnação é o mistério do amor de Deus pelo homem, o mistério do amor de Deus, mas na realidade é o mistério do amor do homem a si próprio...” Esse dogma fundamental do cristianismo expressa, pois, o princípio supremo e último da filosofia, ou seja, a unidade do homem com o homem. Em consequência, e essa é a finalidade de toda a obra de Feuerbach, “o homem é o Deus do cristianismo, e a antropologia é o segredo da teologia cristã”.
Feuerbach considera essa humanização de Deus como a missão da Idade Moderna. A gênese de Deus a partir da projeção que o homem faz de si próprio e da sua essência produz neste a alienação, que expropria o homem de sua própria natureza ou substância de ser sensível e a coloca fora dele: em Deus. Ao mesmo tempo produz a servidão: submetimento e veneração a algo estranho erguido contra a realidade sensível e o homem. A verdade é que o homem é um “ser sensitivo” e seu ser abre-se e fecha-se em relação à natureza e à comunidade dos outros homens mediante o amor. Tal é a luta que deve empreender o homem moderno.
Sua importância histórica está ligada à influência decisiva e amplamente reconhecida que a sua obra exerceu na formação do materialismo dialético de Marx. De fato, o jovem Marx reconheceu que Feuerbach “fundou o verdadeiro materialismo e a ciência real, elaborando sua teoria”. Por isso, a obra de Feuerbach toma parte da “biblioteca dos clássicos” do marxismo.
A crítica ao cristianismo, tanto de protestantes quanto de católicos, não se fez esperar. Feuerbach reduzia a religião à filosofia e a teologia à antropologia. “O segredo da teologia está na antropologia” repete com frequência. Sua teoria da religião é puro sensualismo e materialismo, que não acrescenta nada às posições do ateísmo grego ou do Iluminismo francês do séc. XVIII. Todos reconhecem, no entanto, que faz uma análise brilhante do homem, que no plano tático “pode ser útil para a denúncia das falsificações do homem moderno”. A qualificação que mais se adapta ao seu pensamento é a de realismo humanista. E é inexato caracterizar o pensamento de Feuerbach unicamente como ateísmo.



43 - Filosofia de Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher



Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher nasceu em Breslau, 21 de novembro de 1768, morreu em Berlim, 12 de fevereiro de 1834. Foi pregador em Berlim na Igreja da Trindade e professor de Filosofia e Teologia em Halle. Traduziu as obras de Platão para o alemão. Foi influenciado por Kant e Fichte, mas não se tornou um idealista subjetivo. Schleiermacher foi contemporâneo de Johann Fichte, Friedrich Schelling, Friedrich Krause e Friedrich Hegel. Em 1797, em Berlim, conheceu Friedrich Schlegel e uniu-se ao círculo dos românticos. Posteriormente, ensinou Teologia em Halle e, a partir de 1810, em Berlim, é nomeado pregador da corte, depois professor de Teologia e Filosofia.
As obras que lhe deram maior notoriedade foram os “Discursos sobre Religião” (1799) e os “Monólogos” (1800). Em 1822, publicou a “Doutrina da fé”, que tem importância sobretudo em relação à teologia dogmática protestante. Entre 1804 e 1828, traduziu os diálogos de Platão. Postumamente, foram publicadas as aulas relativas à dialética, à ética e à estética, além de outros temas, dentre os quais revestem-se de particular importância a Hermenêutica, na qual se revela precursor.
As suas doutrinas exerceram grande influência na teologia protestante e foram estudadas, com a evolução do seu espírito, por Dilthey, que dividiu em quatro períodos a sua atividade literária: a juventude (manuscritos), período da intuição (1796-1802), época crítica (1802-1806), período sistemático (1806-1834). Ao contrário de Hegel, Schleiermacher não subordina a religião à Filosofia, porque o sentimento, como unidade originária de pensamento e querer, não é abolido pelo pensamento. O sentimento da imortalidade e da fé na imortalidade fundam-se na “imortalidade da união da essência de Deus com a natureza humana na pessoa de Cristo”.
A religião não aspira a conhecer e explicar o universo em sua natureza, como a metafísica, nem aspira a continuar o seu desenvolvimento e aperfeiçoá-lo através da liberdade e da vontade divina do homem, como a moral. A sua essência não está no pensamento nem na ação, e sim na intuição e no sentimento. Ela aspira a intuir o Universo; quer ficar contemplando-o piedosamente em suas manifestações e ações originais; quer fazer-se penetrar e preencher por suas influências imediatas, com passividade infantil.
A ação do infinito sobre o homem, portanto, é a intuição. E o sentimento é a resposta do sujeito: é o estado de espírito, ou seja, a reação da consciência. Este sentimento que acompanha a intuição do infinito é sentimento de total dependência do sujeito em relação ao infinito. O sentimento religioso, portanto, é sentimento de total dependência do homem (finito) em relação à Totalidade (infinita).
Essa ideia básica vale, como diz Schleiermacher, para todas as formas de religião. Mas, com o passar dos anos, ele também acabou por privilegiar o cristianismo. Cristo passou a aparecer-lhe sempre mais como o Mediador e o Redentor e, portanto, acabou por assumir aos seus olhos aquelas características divinas que ele negara inicialmente.
Na sua “A fé Cristã” (1821-1822), Schleiermacher faz uma formulação sistemática da cristologia, segundo a qual Jesus é a imagem originária do que o homem é antes da queda. Dessa forma, por ser todo o seu pensamento profundamente cristocêntrico, Schleiermacher afirma que o cristão tem consciência de depender de algo superior, sobrenatural, derivando-se daí sua consciência ética, uma vez que tudo está subordinado àquela sensação religiosa, que, enfraquecendo-se, gera o pecado, fortalecendo-se, gera a graça. Para ele o cristão pergunta a si mesmo continuamente: o que deve ser, à luz da consciência cristã? Assim, ele harmonizou as concepções do protestantismo com as convicções da burguesia culta e liberal. Foi considerado radical pelos ortodoxos e visionário pelos racionalistas, mas influenciou, mais do que qualquer outro teólogo, o pensamento protestante do século XIX.

Schleiermacher, dentre outros, concebe Deus, para além do naturalismo e do sobrenaturalismo, como o “ser-em-se”, como “o fundamento criador de tudo que existe”, como “a potência incondicionada e infinita do ser”. Entretanto, para o naturalismo Deus está no mundo e, por outro lado, para o sobrenaturalismo Deus está acima do mundo.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...